

O dia 1 de maio de 2026 ficará para a história como uma data fulcral para as relações comerciais entre a União Europeia e o MERCOSUL. Após anos de negociações complexas e debates políticos intensos, a aplicação provisória do Acordo de Comércio provisório (iTA) é finalmente uma realidade. Nas últimas 48 horas, um novo paradigma comercial começou a tomar forma, criando simultaneamente uma imensa esperança e desafios operacionais imediatos. Como observadores privilegiados desta matéria, oferecemos-lhe uma primeira análise a quente, com base em observações no terreno, reações das empresas e nos primeiros dados disponíveis. Não se trata de uma análise exaustiva, mas de um instantâneo das primeiras horas de uma nova era comercial.
Os riscos são colossais. Estamos a falar de um mercado combinado de mais de 780 milhões de consumidores e de um comércio bilateral de bens que já ultrapassava os 88 mil milhões de euros em 2022. O objetivo do iTA é desmantelar as barreiras pautais e não pautais, simplificar os procedimentos e estimular o investimento. Mas entre a assinatura de um acordo e a sua aplicação efetiva no terreno, há um mundo de complexidades logísticas, aduaneiras e regulamentares. Estas primeiras 48 horas oferecem-nos uma valiosa primeira lição sobre a realidade da integração comercial em grande escala.
Desde as primeiras horas de 1 de maio, a questão na boca de todos os importadores e exportadores era: que reduções pautais se aplicam imediatamente? O acordo prevê um desmantelamento gradual dos direitos aduaneiros ao longo de vários anos, mas uma primeira tranche significativa entrou em vigor. As nossas análises iniciais das declarações aduaneiras confirmam as reduções esperadas em vários produtos-chave.

No entanto, nem tudo correu sobre rodas. Há relatos de confusão sobre alguns produtos específicos, em particular os produtos agrícolas transformados. Por exemplo, para certos queijos (código HS 0406), a classificação precisa para beneficiar da pauta preferencial exigiu esclarecimentos por parte das autoridades aduaneiras, o que levou a atrasos nas primeiras remessas.
A promessa de simplificação dos procedimentos aduaneiros estava no cerne do iTA. As primeiras 48 horas mostraram um quadro misto. Nos grandes portos como Roterdão, Antuérpia e Santos, os sistemas informáticos parecem ter integrado bem as novas regras. As declarações antecipadas e o estatuto de Operador Económico Autorizado (AEO) permitiram a muitos grandes grupos desalfandegar as suas mercadorias sem quaisquer problemas notáveis.
No entanto, os desafios surgiram rapidamente. O principal ponto de atrito tem sido a gestão do certificado de circulação EUR.1, um documento fundamental para provar a origem preferencial das mercadorias. Várias empresas, especialmente as PME menos preparadas, viram as suas mercadorias bloqueadas devido a erros formais no preenchimento destes certificados. Estima-se que cerca de 15% das primeiras declarações que solicitavam o benefício do iTA foram temporariamente suspensas por razões documentais. Além disso, foram registados atrasos inesperados em pontos de entrada secundários, menos habituados a lidar com fluxos comerciais tão grandes e cujo pessoal aduaneiro ainda não estava totalmente treinado nas subtilezas do novo acordo.
Um importador brasileiro de peças de automóvel disse-nos ontem: "Esperamos por esta redução pautal há anos, mas o nosso primeiro contentor está retido em Itajaí porque o código HS mencionado no certificado de origem alegadamente não corresponde exatamente ao da nossa declaração. É uma frustração imensa".
A receção do acordo pelo mundo empresarial é maioritariamente positiva, mas tingida de grande cautela. As principais federações industriais, como a VDA na Alemanha para a indústria automóvel ou a CNI no Brasil, saudaram um "passo histórico". Os diretores de logística e os diretores de vendas contactados nas últimas 48 horas manifestam alívio, mas sublinham a incerteza que permanece.
É obviamente demasiado cedo para ter estatísticas consolidadas, mas os dados em tempo real das plataformas logísticas já mostram tendências. Observou-se um aumento de cerca de 10% no volume de reservas de frete marítimo da Europa para o MERCOSUL na semana anterior a 1 de maio, um sinal de clara antecipação por parte das empresas. Os fluxos de produtos agroalimentares (vinhos, queijos, azeite) e de bens de capital foram os primeiros a reagir.
Os principais desafios nas fronteiras, para além das questões documentais, têm sido logísticos. O aumento súbito dos volumes em certas linhas sobrecarregou as capacidades de armazenamento nos portos e aeroportos. Foram observadas filas de camiões mais longas do que o habitual nos postos fronteiriços terrestres entre o Brasil e a Argentina, onde os sistemas aduaneiros de ambos os países têm agora de se interligar com os novos requisitos do iTA.
Estas primeiras 48 horas, embora curtas, são ricas em lições para as empresas de ambos os blocos:
A aplicação do iTA é uma maratona, não um sprint. Estes primeiros dias destacaram as imensas oportunidades, mas também os atritos inerentes a uma mudança de tal magnitude. Nas próximas semanas, analisaremos mais detalhadamente os impactos setoriais e as estratégias que as empresas terão de adotar para navegar com sucesso neste novo ambiente comercial.
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